Oitenta anos de idade. Sessenta
de Medicina. Nem por isso deixa de ser pontual, seja no consultório particular,
plano de saúde, rede pública e privada e em qualquer outro gerido pelo Estado.
de Medicina. Nem por isso deixa de ser pontual, seja no consultório particular,
plano de saúde, rede pública e privada e em qualquer outro gerido pelo Estado.
– E como encarar a infinda fila do SUS?
Era mais um de seus reclames aos colegas de plantão.
– Cada dia fica mais difícil consultar na rede pública. Assim mesmo, finjo
que receito e o paciente acredita que fica curado. Na verdade, penso que a
maioria vem ao meu consultório por falta do que fazer!
que receito e o paciente acredita que fica curado. Na verdade, penso que a
maioria vem ao meu consultório por falta do que fazer!
É que, em vez de doentes, me deparo mais com ociosos ou pessoas que me
veem como a solução para seus problemas.
veem como a solução para seus problemas.
As histórias são sempre as mesmas: a diarréia aguda pela infecção
intestinal, a cefaléia pelo cartão de credito que estourou, a astenia pela falta
de alimentação, a virose pela picada do mosquito que “pasta” nos esgotos a céu
aberto.
intestinal, a cefaléia pelo cartão de credito que estourou, a astenia pela falta
de alimentação, a virose pela picada do mosquito que “pasta” nos esgotos a céu
aberto.
São pessoas que se amontoam nos
corredores pela falta de atendimento prioritário e até pelo “stress”
corriqueiro do seu dia a dia. Sem falar da insistência na renovação das
receitas de medicação controlada.
corredores pela falta de atendimento prioritário e até pelo “stress”
corriqueiro do seu dia a dia. Sem falar da insistência na renovação das
receitas de medicação controlada.
E assim, prevarica um homem de jaleco chamado doutor que trabalha até
trinta dias por mês para ser abarcado intermitente pelo leão no ano vindouro.
trinta dias por mês para ser abarcado intermitente pelo leão no ano vindouro.
E é dentro desse parâmetro não muito comum na literatura da Medicina que brada
o plantonista:
o plantonista:
– Além do velho cognome ou pela difamação: Ele parece que escreve com os
pés. Também o médico é tudo na comunidade, até cabo eleitoral em época de
eleição.
pés. Também o médico é tudo na comunidade, até cabo eleitoral em época de
eleição.
Houve um caso bem recente, no interior do estado, em que a primeira dama
mandou um bilhetinho para o pediatra de plantão: “Doutor, interne esse filho do
meu eleitor que há dias não faz cocô, o pai leva o supositório, caso precise.”
mandou um bilhetinho para o pediatra de plantão: “Doutor, interne esse filho do
meu eleitor que há dias não faz cocô, o pai leva o supositório, caso precise.”
Mal finaliza o procedimento e já
vem outra ordem lá de cima, e quem traz a distinta ordem é um destrambelhado que
diz ser o chefe dos fungos e bactérias. Ao jogar o receituário sobre o birô o
mesmo avisa:
vem outra ordem lá de cima, e quem traz a distinta ordem é um destrambelhado que
diz ser o chefe dos fungos e bactérias. Ao jogar o receituário sobre o birô o
mesmo avisa:
– O patrão mandou que o senhor assinasse essa receita para dona Maricota,
Olhe aqui, já “tá” prontinha. Ao vasculhar o bolso do jaleco procurando a
caneta, o médico encontra, em vez da caneta, um supositório.
Olhe aqui, já “tá” prontinha. Ao vasculhar o bolso do jaleco procurando a
caneta, o médico encontra, em vez da caneta, um supositório.
Atônito, com tamanho absurdo, o mesmo se perturba:
– Meu Deus! Fico até proibido de imaginar onde eu possa ter deixado a
minha caneta de prata.
minha caneta de prata.
Gonzaga Barbosa 30/04/15
