Uma Crônica Histórica de Pentecoste, Ceará
A Geopolítica da Seca

O sertão nordestino é caracterizado por extremos: a vida exuberante na estação chuvosa e a agonia implacável da seca. No Ceará, a seca transcendeu o fenômeno climático, tornando-se uma questão de vida ou morte que moldou a identidade, a economia e a política regional.
O “som” da época

O Ciclo da Calamidade e a Frustração Nacional
A vulnerabilidade estrutural do Nordeste foi exposta em eventos trágicos:

A “Grande Seca” de 1877 a 1879: Um marco de horror que ceifou vidas e expôs a negligência do poder central. Secas de 1915 e 1932: Estabeleceram um padrão perverso de sofrimento e êxodo massivo. O êxodo rural cearense não era uma escolha de progresso, mas uma fuga da morte, com “flagelados” engrossando as filas nas capitais ou migrando para o Sul/Sudeste.

Para o governo federal, resolver a seca era uma questão geopolítica. O objetivo urgente era fixar o homem à terra, fornecendo segurança hídrica para conter a desintegração social e o enfraquecimento econômico. O Nordeste precisava ser “redimido” pela engenharia.

O Nascimento da “República dos Açudes”

Diante da pressão popular e política, a água passou a ser buscada por meio da intervenção estatal e da engenharia.

DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas)(Antigo IFOCS): Fundado no início do século, tornou-se o grande braço do Estado no sertão, com a missão de domesticar a natureza hostil. O Açude como Símbolo: O açude era o instrumento fundamental dessa política, visto como um ato heroico e civilizador – um monumento à capacidade humana e um substituto da chuva ausente. A construção de obras como o Açude do Cedro era vista como prova de que o Nordeste tinha futuro.

O Contexto da República Nova e o Ceará
Na década de 1940, o Ceará enfrentava instabilidade e uma população decrescente devido à migração incessante. A luta política se concentrava em atrair investimentos do IFOCS.
O Ponto Estratégico: Bacia do Rio Curu: Identificada como um ponto nevrálgico. O Rio Curu é intermitente, causando cheias devastadoras e secas completas. Controlá-lo significava controlar o destino da região.
Pentecoste: O Local Ideal: O município oferecia a topografia favorável no leito do Rio Canindé (afluente do Curu) para a construção da maior barragem da bacia. O projeto visava acumular cerca de 400 milhões de metros cúbicos.

A obra, que viria a ser o Açude Pereira de Miranda, carregava a ambição de décadas de luta contra o flagelo, prometendo permanência. Seus objetivos eram:

Controle definitivo das cheias.
Regularização do fluxo do Rio Curu.
Criação de perímetros irrigados para a agricultura.
O Prelúdio do Sacrifício
A construção do açude era um empreendimento brutal que dependia da tradução do engenho técnico em força física.

Recrutamento da Mão de Obra: Os trabalhadores eram majoritariamente os “flagelados” da seca, que viam na frente de serviço a única chance de sobrevivência.
A Engenharia do Suor: A grande barragem dependeria da força muscular, persistência e vida sacrificada de homens munidos de picaretas e da fome.
Estes homens, que deixariam o anonimato da seca, se tornariam os cassacos, o verdadeiro combustível da intervenção e construtores da esperança de Pentecoste.

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