Crônica de Domingo

Quando a gente era pivete, ter sonhos grandes era tão comum quanto levar bilas nos bolsos. Também não tinha besteira nem aperreio que segurasse a gente. Nem os galhos secos da Jurema abraçando e arranhando nosso rosto enquanto corríamos no meio da Mata Branca, nem o sol que castigava deixando nossos cabelos queimados e a pele cinzenta, muito menos a assombração que dizem que aparecia sempre ao meio dia debaixo do Juazeiro. Já quando estava muito quente, tinha um rio logo ali pra gente pular da barreira, se refrescar e brincar de “Jô ajuda”. Ali os mais habilidosos sabiam até dar pulo mortal duplo pra trás (“Oh bicho pra se garantir!”). Quando a gente era pivete, a fronteira entre a fantasia e a realidade era tão tênue que, às vezes, fronteira não era. Quando a gente era pivete, sabíamos ler a natureza e percebemos que, ao crescer, passamos por uma espécie de desaprendizagem. Por isso, quanto mais o tempo passa, mais a gente sente saudade de ser, assim, um pivete.
Publicado originamente no Lente Digital em 16 de janeiro de 2015
SOBRE O AUTOR
O Professor Nonato Furtado nasceu em Fortaleza (CE) em 1982. Possui graduação em Pedagogia (UVA), Letras Português-Espanhol (UECE), Mestrado em Linguística (UFC) e, atualmente, é Doutorando em Linguística Aplicada (UECE). É professor da Casa de Cultura Portuguesa (UFC) e descobriu na fotografia um estreito diálogo com a literatura e, em particular, com o gênero crônica. Tem interesse pela fotografia como narrativa do cotidiano e tem inclinações para fotografia social e de pessoas. 

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