O mês de julho terminou com uma indagação latente entre os brasileiros, o quê fazer para melhorar a polícia? Dois casos tiveram destaques na imprensa nacional: o primeiro foi à morte de um estudante dentro da sala de aula, consequência de um tiroteio entre policiais e traficantes; e o segundo foi o atropelamento fatal do filho de uma atriz, onde os policiais foram, devido à superexposição na mídia em relação à conduta deles, os “atores” principais. A mídia esqueceu-se de dizer que a conduta deles não evitaria o atropelamento, e que eles foram corrompidos porque alguém deu dinheiro a eles. Eles merecem o nosso repúdio, e somente eles, a polícia não!
Para que serve a polícia? Poderia responder esta pergunta usando os conceitos de Egon Bittner, Jacqueline Muniz, Jorge da Silva, David Bayley, Robert Reiner, Dominique Monjardet, dentre outros, entretanto responderei da forma mais simples, a polícia serve para proteger os cidadãos. E ela protege? SIM. De forma eficaz? SIM. Entretanto, segundo o jargão popular, toda regra tem a sua exceção, e estes dois casos fazem parte da exceção. Quantos roubos, homicídios, sequestros e outros crimes foram rechaçados pela polícia no intervalo de tempo entre estas duas “fatalidades”? Será que é colocando toda a polícia para execração pública que iremos solucionar este impasse? A polícia é imprescindível para a vida em sociedade, entretanto ela é formada por seres humanos que tem sentimentos, acertos e erros, porém a peculiaridades da função policial faz com que os acertos dos policiais, para a sociedade, não passem de obrigações, pois eles recebem para isso, e os seus erros sejam suscetíveis a receberem as piores penas, a execração pública. Quem ganha com isso?
A morte do estudante no Rio de Janeiro é conseqüência de uma política onde o Governador, veementemente, afirma que vai para o enfrentamento contra os criminosos e não vai recuar, o Secretário diz que “não se pode fazer omelete sem quebrar ovos”, querendo justificar as vidas dos inocentes que são perdidas nos confrontos, e ratifica: “vamos para o confronto”. Como ficam os policiais diante destes fatos? A partir do primeiro erro, eles serão “linchados” pela opinião pública. Será que todos os erros dos policiais são intencionais? Será que o policial que atirou, caso tenha sido algum deles, queria acertar o tiro no estudante? Como são preparados estes policiais? Como eles não são máquinas e sim humanos, quais são as suas condições psicológicas? Alguém se preocupa com isso? Alguém quer saber o quê levou o policial ao errou? Alguém quer saber se ele tinha condições para estar na operação naquele momento? Por questão de justiça, vou deixar registrado que o comandante geral da polícia militar do Rio de Janeiro, coronel Mário Sérgio, é um comandante preocupado com seus subordinados, a quem tive a honra de estar ao lado em algumas mesas de debates sobre polícia e em outras oportunidades de troca de conhecimentos, e sei o quanto é comprometido com a sua Instituição e os seus subordinados, mas infelizmente “uma andorinha só, não faz verão”.
Voltando a questão da condição do policial, o preparo dado aos policiais por ocasião da sua formação é muito aquém do desejado em todos os estados brasileiros. Mas, ainda assim, vamos considerar que eles tiveram uma formação ideal. Vou trazer à baila coisas da minha intimidade com uma única finalidade: enriquecer o debate. Meu irmão é sargento da polícia militar da Bahia, e ficou viúvo, pois minha cunhada morreu vítima de um câncer. Ela deixou duas filhas, uma de 5 e outra de 2 anos, para ele criar. Ele ficou oito dias de luto e depois voltou ao trabalho. Ele sai para trabalhar, todo dia, com uma arma na cintura após a noite mal dormida pelo fato das filhas chorarem chamando a mãe, à sua companheira de anos que partiu, recentemente, na flor da idade! Meus amigos, será que meu irmão tem condições de portar essa arma? Será que ele tem condições de dirimir os conflitos que aparecem durante seu serviço? Só mesmo muita fé e orações para livrá-lo dos males, pois o amparo institucional se limitou aos oito dias de luto previsto em lei.
Mais uma vez, trago a afirmação August Vollmer sobre a expectativa que o cidadão nutre em relação ao policial:
“O cidadão espera do policial que ele tenha sabedoria de Salomão, a coragem de Davi, a força de Sansão, a paciência de Jó e a autoridade de Moises, a bondade de um bom samaritano, o saber estratégico de Alexandre, a fé de Daniel, a diplomacia de Licon e a tolerância do carpinteiro de Nazaré e, enfim, um conhecimento profundo das ciências naturais, biológicas e sociais. Se ele tivesse tudo isso pode ser que seja um bom policial”.
O cidadão até pode esperar isso, mas nunca pode esquecer que o policial é um ser humano, e como ser humano tem limitações e defeitos; por isso devem ser julgados individualmente e não coletivamente; a polícia, para o bem da sociedade, não pode viver constantemente sobre execração pública. Quem ganha com o desgaste da polícia? Os bons profissionais (SUA GRANDE MAIORIA) não podem sofrer as conseqüências dos maus profissionais (PEQUENA MINORIA)! Por fim, existem instituições que protegem as onças pintadas, os micos leões dourados, os tucanos e outros animais, todas estas instituições são importantíssimas, entretanto no meio desta “selva de pedras” quem protege os seres humanos? Quem protege quem nos protege? Ou seja, e quem protege os policiais?