
O ano de 1950 marcou o ponto de inflexão na história de Pentecoste e do Vale do Curu. O projeto do Açude Pereira de Miranda deixou de ser um sonho burocrático, registrado em gráficos de vazão e cálculos de resistência, para se tornar uma realidade física, inaugurando o que se pode chamar de “Ano Zero” da construção. Foi o momento em que a engenharia pesada do Estado, personificada pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS)(Antigo IFOCS), fez a sua entrada dramática no sertão cearense.
O Poder das Máquinas e o Contraste Tecnológico
A primeira impressão do que viria a ser o canteiro de obras do “Pereirão” era o contraste ensurdecedor entre o silêncio ancestral da caatinga e o rugido da tecnologia moderna. A chegada das máquinas era um espetáculo sem precedentes para a população local, acostumada apenas à força do boi e do braço humano.
Gigantes de Ferro: Toneladas de ferro e aço eram lentamente transportadas por estradas precárias até a margem do Rio Canindé. Escavadeiras, scrapers, motoniveladoras e, principalmente, os robustos tratores D-8, importados e caríssimos, representavam o poder da intervenção federal. Esses gigantes não apenas substituíam o trabalho de centenas de homens, mas simbolizavam o compromisso inadiável do governo em domar a natureza. A visão dessas máquinas, muitas vezes inédita para os sertanejos, era a própria imagem do Progresso, um prelúdio da redenção que a água prometia trazer.
Implantação da Infraestrutura: O primeiro grande desafio logístico foi a criação do acampamento. Foi necessário construir rapidamente uma Vila Operária para abrigar o corpo técnico do DNOCS (Antigo IFOCS) — engenheiros, topógrafos, técnicos em hidrologia e pessoal administrativo. Essa “vila”, com moradias mais dignas, escritórios e energia (quase sempre gerada por motores próprios), era um microcosmo de modernidade isolado pela poeira e pelo calor.

O Canteiro de Serviços: Ao redor dessa vila, surgiram os almoxarifados, as oficinas mecânicas para manutenção dos equipamentos e os depósitos de combustível, vitais para manter a obra em andamento. A logística de suprimentos, que dependia da capital Fortaleza, exigia um aparato complexo de transporte e segurança. O Açude Pereira de Miranda se transformou em um polo de atração e irradiação tecnológica e administrativa no meio do sertão.
A Geopolítica da Mão de Obra
Ainda que as máquinas fizessem o trabalho mais pesado de movimentação de terras, a construção da barragem, que se estenderia por sete anos, exigia uma massa humana imensa e constante. O Estado sabia exatamente onde encontrar essa mão de obra: entre os próprios flagelados da seca.
O Êxodo Revertido: O boato de que havia “trabalho e comida” no canteiro de Pentecoste se espalhou como um rastilho de pólvora pelo sertão castigado. Famílias inteiras, esgotadas pela seca crônica da década de 40 e temendo o êxodo final para o Sul, convergiram para o Vale do Curu. A construção do açude funcionava, portanto, como uma válvula de escape social, concentrando a população miserável em um ponto estratégico para evitar o colapso nas cidades grandes e o abandono definitivo da região.

O Contrato Social da Fome: O DNOCS (Antigo IFOCS) não estava apenas construindo um açude; estava gerenciando uma crise social. A obra se tornou uma Frente de Serviço de Emergência, onde a oferta de trabalho era a única forma de assistência que o governo moralmente aceitava oferecer. O discurso oficial era que o trabalho enobrece, ao contrário da esmola, que avilta. Na prática, era a fome o elemento que ligava o camponês arruinado ao canteiro de obras. Eles aceitavam qualquer condição em troca da chance de sobreviver.

A Instalação dos Barracões: Enquanto o corpo técnico residia na Vila Operária, os trabalhadores rurais e retirantes recém-chegados eram alojados nos barracões ou se auto-organizavam em vastos acampamentos improvisados, muitas vezes feitos de palha e taipa, chamados de “debaixo dos paus”. Esses acampamentos eram superlotados, sem infraestrutura sanitária básica e sujeitos à poeira, ao calor extremo e às doenças. A diferença gritante entre a moradia dos engenheiros e a dos trabalhadores era o primeiro sinal da exploração que definiria a construção.


O Batismo da Exploração: Nascem os “Cassacos”
Ao ingressar na frente de serviço, o camponês deixava de ser um “flagelado” ou um “retirante” para receber uma nova identidade social e laboral, carregada de humilhação e descaso: o “cassaco”.

Etimologia da Mágoa: O termo “cassaco” ou “cassacada” era historicamente associado a algo de pouco valor, mão de obra bruta, explorável e descartável. No contexto do DNOCS, essa palavra resumia a condição do trabalhador pobre, mal pago e desprovido de direitos básicos. Ele era o oposto do “técnico” ou do “engenheiro”.

A Ferramenta Humana: O cassaco era a ferramenta essencial para o projeto. Ele manuseava a picareta, a enxada e a pá, escavando manualmente a terra, carregando o material e compactando o solo nas áreas onde as máquinas não conseguiam chegar ou onde o custo de operação era proibitivo. Era um trabalho que exigia força física extrema e resistência a jornadas exaustivas sob o sol inclemente do semiárido. O corpo do cassaco, castigado pela fome e pela doença, era o verdadeiro combustível humano da grandiosa obra.
A Ironia do DNOCS: Em meio à miséria, nascia a ironia do povo. Os cassacos, em seu dialeto de sofrimento, criaram significados alternativos para a sigla do DNOCS, expressando sua revolta e seu humor sombrio. Frases como “Deus Não Ordena Cassaco Sofrer” ou, mais cruelmente, “Sofre Cassaco Ordinário Nesse Departamento” circulavam pelos canteiros, sendo um testemunho oral e popular da exploração institucionalizada.

O Ano Zero (1950) foi, portanto, o ponto de convergência entre a esperança política de redenção e a realidade brutal da exploração. A engenharia estava pronta para domar o rio, mas para isso, ela precisaria primeiro domar a força de trabalho, submetendo-a a um regime de subsistência que se tornaria a marca mais dolorosa da construção do Açude Pereira de Miranda.
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