Existem encontros que não são apenas conversas, mas verdadeiras viagens no tempo. Hoje, tive a honra de receber em minha loja o senhor Cícero Mendes. Aos 95 anos de idade, ele carrega no rosto as marcas de quem viu o mundo mudar, mas guarda na memória, com uma nitidez impressionante, os detalhes de uma época em que o progresso da nossa querida Pentecoste era esculpido à base de marreta, suor e muita coragem.

Por: Zé da Legnas
O Gigante de Pedra: O Suor por trás do Açude Pereira de Miranda
Falar com Seu Cícero é entender que as belezas que contemplamos hoje tiveram um preço alto para os nossos antepassados. O Açude Pereira de Miranda, hoje o cartão-postal e sustento de nossa região, não foi construído com a facilidade das máquinas modernas. Ele foi erguido por mãos humanas, e Seu Cícero foi testemunha e protagonista dessa história.
Aos 15 anos, enquanto muitos ainda viviam as descobertas da juventude, ele já estava no “trecho”. Com uma clareza que emociona, ele recorda a dureza da lida: “Quando você vê esse açude bonitinho assim, não imagina que teve cara que chorou lágrimas de sangue ali. Era empurrando carro de mão com roda de ferro no meio da areia fofa, debaixo de um sol escaldante”, relembra.
Seu pai, o Sr. José Francisco Mendes, era um dos “cavoqueiros” da obra. Durante seis anos, o trabalho dele era furar as pedras manualmente para colocar as bananas de dinamite. Era um serviço de extrema periculosidade, onde a força física e a precisão eram as únicas ferramentas de segurança. O resultado desse esforço hercúleo está lá, na parede do açude, onde cada pedra assentada conta a história de homens que deram o sangue pelo futuro de Pentecoste. Enquanto o pai quebrava pedras, o jovem Cícero trabalhava pesado até as nove da manhã e, nas horas vagas, vendia pães (a famosa Maria Maluca) para os trabalhadores, garantindo um extra que muitas vezes superava o salário de quem estava na picareta.
Uma Trajetória de Luta: De Pentecoste para o Mundo
A história de Cícero Mendes não se resume apenas ao açude. Ele é um homem que nunca temeu o trabalho, onde quer que ele estivesse. Serviu ao Exército, onde aprendeu disciplina, mas sentiu que precisava buscar novos horizontes para ter um futuro melhor. Buscando oportunidades, partiu para Fortaleza, onde viveu por mais de 30 anos. Na capital, tornou-se um mestre na metalúrgica e na solda, profissão que deixou marcas em seu corpo, mas que lhe deu o sustento para criar uma família monumental.
O fruto de tanto esforço atravessou fronteiras. Seu Cícero orgulha-se de ter colocado 26 filhos no mundo. Hoje, sua descendência brilha em vários cantos do Brasil: de filhos proprietários de fábricas em Brasília e no Maranhão, até uma neta que hoje atua como juíza em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. É a prova de que o suor de um homem simples de Pentecoste floresceu em sucesso para as próximas gerações.
O Vigor na Ipueira Funda: O Segredo da Longevidade
De volta às suas raízes, Seu Cícero não quer saber de descanso. Na região da Serrota, mais especificamente na Ipueira Funda, ele mantém seu terreno com o vigor de um rapaz. Quem passa por lá se surpreende ao vê-lo cuidando do seu barreiro (um pequeno açude particular). Ele mesmo faz a manutenção e garante: “Tiro água de um ano para o outro”.
Sua rotina diária é um tapa na cara do sedentarismo. O Sr. Cícero caminha cerca de seis quilômetros todos os dias, conhece cada atalho e vizinho da região, como o Cristiano e a Fran Moura. Com 95 anos, sua lucidez é total, e o bom humor é sua marca registrada. Entre risos, ele se autointitula o “terror do INSS”, lembrando que já recebe sua aposentadoria há 40 anos e planeja chegar aos 115 com a mesma disposição.
Um Legado de Coragem e Perseverança
Ao passarmos pela parede do açude ou pelo centro de Pentecoste, muitas vezes esquecemos dos heróis anônimos que assentaram os tijolos da nossa sociedade. Cícero Mendes é um desses heróis. Ele é o elo entre a Pentecoste de 1930, que sofria com as secas e o trabalho braçal extremo, e a cidade de hoje.
Sua história nos ensina que, com coragem e perseverança, é possível vencer as maiores dificuldades. Seja carregando um carro de mão com rodas de ferro ou enfrentando as faíscas de uma solda metalúrgica, Seu Cícero nunca baixou a cabeça.
Hoje, ele é mais do que um morador da Serrota; ele é um patrimônio vivo da nossa terra. Que sua história sirva de inspiração para os jovens de Pentecoste: o trabalho dignifica, a persistência constrói e a alegria de viver é o melhor remédio para uma vida longa.
Desejamos ao Sr. Cícero Mendes ainda mais saúde e que ele continue caminhando pelas estradas da Ipueira Funda, contando suas histórias e nos lembrando de onde viemos. Pentecoste agradece por sua contribuição e por sua vida, Seu Cícero!