O Poeta Que Conversa com as Estrelas e a Inteligência Artificial


Um cordel moderno reflete sobre o universo, a inteligência artificial e o olhar curioso do homem nordestino.

A poesia nordestina entre o sertão e o universo

A poesia nordestina segue se reinventando, misturando tradição, ciência e curiosidade. No poema “Eu fico aqui divagando”, o autor expressa uma reflexão profunda sobre a pequenez humana diante do universo e o impacto da inteligência artificial na vida contemporânea.

O texto, escrito em linguagem popular e rimada, é um verdadeiro cordel cósmico, que une o chão do sertão às galáxias distantes — mostrando que a sabedoria do povo continua sendo uma força de interpretação do mundo.


O Poema: “Eu fico aqui divagando”

1ª Estrofe
Eu fico aqui divagando
Na poesia e no verso
Me acho muito pequeno
No meio deste universo
Nas galáxias e na expansão
Será que existe uma porção
De gente aí submerso?

2ª Estrofe
Vi que a história humana
Tem muita sabedoria
Conversar com uma tela
No passado quem diria
Hoje tem fala neural
Que é artificial
Até assusta hoje em dia

3ª Estrofe
O homem já foi na lua
Há mais de 60 anos
Tu imagina esses dias
Como andará esses planos
No dia que der na veneta
Vai morar no outro planeta
Dizendo que foi engano

4ª Estrofe
Eu pergunto para ia
Com respeito e atenção
Só por curiosidade
Que tem um já sessentão
Nessas galáxias tá fora
Será que alguém já mora
Ou é só nós meu irmão?

5ª Estrofe
Porque é mundo demais
É galáxias estelares
Estrelas que ninguém conta
Vários sistemas solares
E nós só nessa terrinha
Porque é bem pequenininha
Para dividir com os mares


A voz do sertanejo curioso

Nos primeiros versos, o poeta se coloca como um observador do infinito:

“Me acho muito pequeno / no meio deste universo.”

Essa simplicidade revela uma filosofia natural, onde o homem do interior observa o céu e transforma a dúvida em poesia. A linguagem é direta, com expressões típicas da fala popular, como “ter gente aí submerso”, que dá ritmo e identidade à obra.

Mais do que contemplação, há aqui uma curiosidade ancestral — a mesma que move a ciência, mas dita com sotaque e sentimento.

Entre a tela e o verso

O poeta também reflete sobre o avanço tecnológico:

“Conversar com a tela / no passado quem diria / hoje tem fala neural / que é artificial.”

Esses versos traduzem o espanto de uma geração que viu a tecnologia tomar forma diante dos olhos. Ao mencionar a fala neural, o autor demonstra compreensão sobre o funcionamento das inteligências artificiais, mas mantém o tom humano e poético:

“Até assusta hoje em dia.”

Essa mistura de encanto e desconfiança mostra o choque entre o saber popular e o saber digital — um diálogo entre o homem e a máquina.

O humor e a crítica

Quando escreve:

“O homem já foi na lua / há mais de 60 anos / tu imagina esses dias / como andará esses planos.”

O poeta traz um toque de ironia cearense. A frase “vai morar no outro planeta dizendo que foi engano” resume com humor o comportamento humano de sempre buscar o que está longe e esquecer o que está perto.

É uma crítica poética ao progresso sem propósito — ao homem que conquista o espaço, mas ainda não entende o seu próprio coração.

O diálogo com a IA

O ponto mais simbólico do poema é o diálogo com a inteligência artificial:

“Eu pergunto para ia / com respeito e atenção.”

Aqui, o autor cria uma metáfora moderna — a conversa do homem simples com a sabedoria digital. O poeta não teme a tecnologia, mas a encara com curiosidade e respeito, reafirmando que a verdadeira inteligência é a que faz perguntas, não apenas a que oferece respostas.

Da terrinha ao infinito

O poema termina com ternura e consciência:

“E nós só nessa terrinha / porque é bem pequenininha / para dividir com os mares.”

A “terrinha” é símbolo da origem, da humanidade e da humildade. Mesmo diante da imensidão das galáxias, o poeta lembra que é aqui, neste pequeno planeta, que mora o milagre da vida — e que é nele que devemos permanecer curiosos, gratos e conscientes.

Conclusão

A poesia “Eu fico aqui divagando” é uma das mais belas expressões da nova literatura nordestina, que une o conhecimento popular ao pensamento moderno. Com versos simples e profundos, o autor mostra que o sertanejo também pensa o cosmos, entende a IA e reflete sobre o destino humano com a mesma grandeza de qualquer filósofo.

No fim, fica a lição:

“A tecnologia pode falar, mas é o poeta quem sente.
O universo é infinito, mas o coração humano é o verdadeiro mistério.”


Sobre o Autor

Zé da Legnas é poeta, cordelista e criador de conteúdo digital de Pentecoste (CE). Fundador do portal Notícias de Pentecoste, ele dedica sua arte e sua comunicação a valorizar a cultura nordestina, divulgar histórias do povo e refletir sobre o mundo com sabedoria popular e verdade.


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