
Música de anúncios de 1950
A decisão de construir um açude da magnitude do Pereira de Miranda é sempre um ato de profunda reflexão geográfica, econômica e, sobretudo, política. Não se trata apenas de encontrar um gargalo natural para represar um rio; é preciso avaliar o potencial da bacia hidrográfica, calcular o impacto na vida das populações de montante e jusante, e, crucialmente, determinar a capacidade da obra de, finalmente, reverter o ciclo de miséria imposto pela seca. Para o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS)(Antigo IFOCS), o Vale do Curu, com seu rio de regime intermitente, representava um desafio técnico formidável e uma oportunidade inestimável de afirmar a presença do Estado em uma região carente de segurança hídrica.
A escolha do local, realizada por volta de 1950, não foi resultado do acaso, mas sim fruto de estudos topográficos e hidrológicos detalhados que se acumularam por décadas nos arquivos do órgão. A geomorfologia da área, especificamente no leito do Rio Canindé — um afluente crucial que deságua no Rio Curu —, no município de Pentecoste, oferecia condições ideais. O terreno permitia a construção de uma barragem que, embora gigantesca, seria eficiente em termos de custo-benefício, criando uma vasta área de acumulação. O cálculo final da capacidade do reservatório, que ficaria em impressionantes 395.638.000 metros cúbicos, validava o investimento federal e a inevitável mobilização de recursos humanos e materiais.

O projeto do Pereira de Miranda foi concebido com um escopo que transcendia a simples acumulação de água para beber. Ele carregava uma tríplice finalidade que representava o auge da política de engenharia contra a seca, mirando a transformação radical da paisagem e da economia:
Controle Definitivo das Cheias: A prioridade era eliminar a vulnerabilidade das comunidades ribeirinhas. O Rio Canindé, em anos de inverno farto, mostrava-se indomável, inundando e devastando plantações. A barragem atuaria como um gigantesco freio hidráulico, contendo a fúria da água e protegendo vidas e bens em toda a sua bacia.

Regularização do Fluxo: O açude garantiria uma vazão controlada e perene, ou seja, constante, para o Rio Curu em sua porção final, acabando com a sazonalidade e assegurando a disponibilidade de água mesmo nos meses de estiagem prolongada. Isso era vital para a vida a jusante, que dependia inteiramente do fluxo superficial do rio.

Irrigação e Desenvolvimento Econômico: O objetivo mais ambicioso era o socioeconômico: a criação de vastos perímetros irrigados. O reservatório deveria se transformar em um celeiro produtivo. A água seria distribuída através de canais complexos, permitindo que a agricultura florescesse independentemente das chuvas, garantindo o abastecimento para culturas variadas, potencializando a piscicultura (uma fonte de proteína essencial) e, em última instância, viabilizando a fixação definitiva do homem ao campo. Era a promessa de uma revolução na economia local, onde o destino do sertanejo seria ditado não mais pela imprevisibilidade da natureza, mas pela gestão planejada da água.

O Arquiteto da Obra: José Pereira de Miranda

A materialização desse projeto colossal exigiu não apenas recursos, mas liderança técnica inquestionável. No comando da execução da obra estava o engenheiro que acabaria por imortalizar seu nome na paisagem cearense: José Pereira de Miranda.

Embora o DNOCS fosse uma máquina burocrática propensa a ofuscar o indivíduo, Pereira de Miranda se destacou no corpo técnico. Ele era o elo essencial entre o planejamento teórico em Brasília e a realidade bruta da execução no sertão. Sua dedicação não se resumia a despachar relatórios; ele encarnava a persistência e a visão técnica necessárias para levar o projeto a termo, enfrentando não apenas os desafios geológicos e climáticos inerentes à obra, mas também as constantes interrupções de recursos e a complexidade logística de um Brasil que ainda carecia de infraestrutura rodoviária adequada.

O projeto era, tecnicamente, uma sinfonia de desafios. Era necessário dominar a engenharia da terraplenagem em larga escala, o uso preciso de concreto nas estruturas de vertimento e a construção de um maciço de terra capaz de suportar a pressão de milhões de toneladas de água. A persistência de Pereira de Miranda foi o que manteve o ritmo em meio às inevitáveis crises. Ele foi o técnico que traduziu a esperança política em cálculos de resistência, volume e vertimento, garantindo que a barragem fosse construída para durar. O fato de a obra ter sido posteriormente batizada em sua homenagem (Capítulo 7) atesta o reconhecimento de sua importância além das paredes do canteiro.
Para a população de Pentecoste e dos arredores, a notícia da iminente construção foi um misto complexo de excitação e profunda apreensão.
Por um lado, a obra representava o fim de uma maldição secular. A esperança de que a água seria permanente, permitindo o planejamento da safra e o crescimento da comunidade, era imensa. A obra traria, temporariamente, empregos para milhares de “flagelados”.


Por outro lado, o progresso exigia um custo social. O projeto previa o alagamento de vastas áreas, exigindo o desalojamento e o reassentamento de famílias que viviam nas várzeas férteis do Rio Canindé. Essas famílias, que tinham uma conexão ancestral com a terra que seria submersa, enfrentavam o trauma da perda de seu lar e de seu modo de vida tradicional. Embora o DNOCS previsse indenizações e reassentamentos, a dor da desapropriação era um sacrifício real e imediato exigido pela grandiosidade do projeto. Essa tensão entre a promessa de redenção e o sacrifício individual marcaria toda a história da construção.


O futuro, portanto, estava sendo moldado não apenas pelo engenho dos técnicos, mas pela resiliência dos que seriam deslocados e, em breve, pela força bruta dos que viriam de longe para construir. O sonho hídrico do Vale do Curu deixava as pranchetas para encarar a realidade bruta do sertão. O próximo e inevitável passo seria a mobilização da mão de obra, a atração de milhares de homens famintos e desesperados que, por sete longos anos, seriam o músculo e a alma da construção. A engenharia dos grandes açudes dependia, agora, da engenharia do esforço humano.

Continua no próximo capítulo… (Aguarde aqui!)