Pai de Bruce diz ter medo da polícia


Francisco das Chagas, pai de Bruce Cristian, confirmou, em 
depoimento, que o PM Yuri Silveira quis atirar no jovem. 
Para ele, todos “têm medo do Ronda do Quarteirão”

Francisco das Chagas de Oliveira Sousa, 37, pai de Bruce Cristian, contou que cruzou pela primeira vez, desde domingo, com uma viatura do programa Ronda do Quarteirão, na tarde de terça-feira, 28. Cerca de 48 horas depois da morte do filho de 14 anos por um tiro disparado domingo, 25, da pistola de um policial militar. “Se eu já tinha medo da Polícia, senti uma sensação muito ruim”, tenta descrever.
Ao chegar ao 4º Distrito Policial (Pio XII) para prestar depoimento, Francisco das Chagas caminhava sem pressa na companhia do irmão, o auxiliar em logística Adriano Oliveira. Na segunda declaração à Polícia – a primeira havia sido dada no 2º DP no domingo – o técnico em refrigeração confirmou ao delegado o relato da testemunha ouvida na última quarta-feira. O estudante de 20 anos que filmou os momentos seguintes à morte de Cristian afirmou que o tiro disparado pelo policial Yuri Silveira não foi acidental. Francisco apresentou uma nova denúncia de lesão corporal contra o policial.

O delegado que preside o inquérito, Munguba Neto, pediu nova narrativa de Francisco, mais detalhada. Ele queria tirar dúvidas que não ficaram esclarecidas no primeiro depoimento. Uma delas é que o pai diz que o policial teria atirado conscientemente.

Ainda conforme o delegado, o soldado acusado, em suas declarações no 2º DP, afirmou que, ao puxar a arma, ela teria disparado acidentalmente. A partir de segunda-feira, Munguba Neto deve notificar Yuri Silveira para que ele se apresente à delegacia para prestar depoimentos.

Revolta

Momentos antes do depoimento, Francisco das Chagas pediu desculpas pelo tom de revolta das palavras, mas não falava nada “além da verdade de quem teve um filho assassinado brutalmente”. Covarde é a palavra que ele encontrou para classificar o fato. Sem jeito, sem volta. “O pior é ver o filho morrendo e você não conseguir fazer nada”, disse, com a voz embargada.
O homem tinha um semblante abatido. Não podia ser verdade, dizia, que o Estado não enxergasse que a população tem medo do Ronda do Quarteirão. Ainda mais agora. “O policial tinha que ser homem para chegar e assumir o que fez. Vocês não sabe como é difícil para eu falar”, emociona-se. Uma marca que ele deve carregar sempre. “O que eu ‘ganhei’ (morte do filho) não esqueço pelo resto da vida”.
E-MAIS
De acordo com o delegado Munguba Neto, Francisco das Chagas abriu uma representação de lesão corporal culposa contra o policial Yuri Silveira. O técnico em refrigeração teria sido atingido pelo impacto da bala na moto que guiava no momento que o tiro atingiu o filho, Bruce Cristian, domingo, 25.

Os crimes cometidos por militares em serviço são investigados por uma vara especial, a da Auditoria Militar. No caso de um homicídio doloso (com intenção de matar) praticado em serviço, o suspeito seria julgado pela Justiça comum. No caso do homicídio culposo (sem intenção), é que o militar teria uma Justiça especializada.

De acordo com o promotor Joathan Machado, a prisão preventiva pedida pela Justiça Militar é legal por se tratar de uma prisão temporária administrativa. “Além do homicídio, devem existir outros delitos militares que estou investigando. Pode ter havido outro crime
militar que seria a omissão de socorro. Tudo em tese”.

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