Foi um processo longo e penoso, aquele que me levou à conclusão de que embora a Igreja deva ser – por excelência, agência da salvação dos homens – a ação divina jamais se restringiria a ela.
Isso incomoda demais os religiosos – deveria incomodar sobremaneira a mim que sou um líder religioso – mas percebo que há muitos anos minhas ilusões de que essa ou aquela Igreja pudesse ser o veículo credenciado por Deus para “Salvar as pessoas”, foram se evanescendo até restar somente um realismo que infelizmente perturba muita gente que me acompanha e gera freqüentes críticas e até perseguições à minha pessoa.
Não perdi minha fé em Deus: muito pelo contrário, ela se engrandeceu, à medida que pude ter uma visão de diversos sistemas e perceber a ação divina para além deles.
O mesmo incômodo que os judeus tiveram quando Jesus elogiava a fé de algumas pessoas que não pertenciam ao sistema religioso deles, a mesma reação de indignação que percebia quando católico com relação a grupos “protestantes”, é muito viva em muitos seguidores de movimentos evangélicos.
Por esses dias, umas duas pessoas demonstraram indignação e comportamento agressivo (todo fanatismo é perigoso, a forma como argumentam é ferina, o sentimento que inspiram é odioso) quando elogiei Chico Anísio como um grande homem.
Veio a reação inicial na pergunta de um religioso: “Que fez ele pelo evangelho”?
Para qualquer pessoa de inteligência mediana, a pergunta chega a ser risível, demonstrando um grau de ignorância tão acentuado, que beira à animalidade no que toca a uma total ausência de raciocínio lógico.
E a espiritualidade pode se resumir a um sistema, estrutura religiosa, a um credo?
Jesus Cristo é Vida: quantos dizem isso sem pensar na gravidade e amplitude da afirmação?
E vida não é chorar? Cantar? Sorrir? Se alimentar, exercitar, procriar (sexo), estudar, trabalhar, sentir, pensar?
Então, que fazem os nutricionistas e médicos pelo Evangelho? Que fizeram os milhares de cientistas dedicando-se de modo penoso e altruísta às pesquisas para produzir elementos que beneficiassem a humanidade?
Que fazem os policiais, militares e bombeiros pelo Evangelho? Que fizeram os estadistas e diplomatas que lutaram para construir a paz entre os povos?
O que fizeram pelo Evangelho os abnegados professores e educadores que durante gerações ensinaram toda espécie de disciplinas, conhecimentos e culturas?
Que fizeram os grandes músicos (preciso citar?), os pintores, escritores, poetas, escultores e demais artistas que produziram as mais magnificentes e belas obras que causam enlevo, enobrecem e demonstram a grandeza do engenho humano?
Ficam me pedindo quase que diariamente, explicações para perguntas triviais – até respondo quando não vêm com a arrogância patética de gente que demonstra claramente não entender as coisas e se atrevem a emitir pareceres ridículos – mas isso cansa!
Lamento que as pessoas não tenham interesse de aprender, o que casa com uma quantidade enorme de líderes que ficam abrindo “Igrejas”, sem a mínima qualificação para ensinar, e ficamos expostos a esse desgaste de viver tendo de explicar coisas que deveriam ser do conhecimento desses freqüentadores habituais das denominações que decoram meia dúzia de versículos bíblicos, julgando então que já sabem de tudo!
O que fez Chico Anísio?
Fez as pessoas rirem, esquecer um pouco essa vida difícil, parar um pouco de se digladiarem e assentarem-se juntas para relaxar as tensões…
O que fazem esses “crentes e religiosos chatos que não abrem o entendimento para aprender”?
Semeiam tensões, antipatias, radicalismo inútil e antagonismos absolutamente desnecessários.
Eles nos fazem chorar!
Darckson Lira.
