Pereira de Miranda: A Convivência no Semiárido Cearense

Quando os flagelados da seca, camponeses arruinados pela estiagem e despojados de suas terras, chegavam ao Vale do Curu em busca de alistamento no imenso canteiro de obras do DNOCS, eles entravam em um universo à parte. Era um mundo de regras arbitrárias, sofrimento coletivo e desigualdade escancarada. Ali, eram imediatamente despidos de sua identidade civil e rebatizados pela sorte cruel e pela lida desumana: eram os cassacos.

Imagem ilustrativa. (Real em outro município)

A Etimologia da Exploração e a Nova Identidade

A origem do termo “cassaco” é historicamente controversa, mas no contexto das grandes obras hídricas do Nordeste, seu significado era unívoco e devastador: designava o trabalhador pobre, considerado de menor valor, mal pago e explorável. Eles eram a mão de obra tida como descartável pela administração técnica, contrastando diretamente com os engenheiros e técnicos, a elite da Vila Operária (Capítulo 3). A obra do Açude Pereira de Miranda se assentava, literal e socialmente, sobre os ombros dessa categoria explorada, transformada em mera commodity para o avanço da engenharia.

A miséria, que eles haviam fugido, apenas mudara de endereço. Nos canteiros, ela se tornava sistêmica e administrada. O cassaco era um ser em constante estado de vulnerabilidade, dependente da vontade dos fiscais e da produtividade de seus próprios braços para sobreviver mais um dia.

Imagem ilustrativa. (Real em outro município)

O Cotidiano da Indignidade e o Peso da Insalubridade

O cotidiano dos cassacos era uma sucessão de privações que rivalizava, e por vezes superava, a própria tragédia da seca que os havia expulsado de suas casas. A falta de infraestrutura era a sua sentença:

A maioria vivia em barracões improvisados, construídos às pressas pelo DNOCS, ou em ranchos autônomos, feitos de taipa e palha, aglomerados em vastos acampamentos chamados popularmente de “debaixo dos paus”. A altíssima densidade populacional nesses espaços, aliada à ausência de planejamento sanitário, criava um caldo cultural para a desgraça.

A insuficiência alimentar era o fator mais perverso de todos, pois minava a força física essencial para o trabalho. O corpo enfraquecido pela má nutrição tornava-se alvo fácil para a proliferação de doenças. O tifo, a disenteria, a tuberculose e, principalmente, o impaludismo (malária), potencializado pela presença da água parada no canteiro e nas poças criadas pelo rio, proliferavam rapidamente. A mortalidade era alta e, frequentemente, os óbitos eram registrados de forma vaga, diluídos na urgência da construção e longe do olhar fiscalizador das autoridades sanitárias.

O homem da frente de serviço estava, em grande parte, desassistido. As famílias que acompanhavam os cassacos — mulheres, crianças e idosos — viviam em condições de extrema vulnerabilidade, sem proteção, sem escola para as crianças e sem assistência médica adequada. A solidariedade mútua entre os próprios cassacos era, na prática, o único sistema de saúde e apoio social disponível, criando laços de camaradagem e resistência.

A espinha dorsal do sistema de exploração no Açude Pereira de Miranda era o regime da “tarefa”. Essa modalidade de contratação era um mecanismo perverso que desonerava o Estado de qualquer responsabilidade trabalhista e transferia todo o risco do empreendimento para o operário.

Imagem ilustrativa. (Real em outro município)

O pagamento era feito estritamente “por metros cúbicos” de terra, cascalho ou rocha escavados, movimentados ou compactados. O cassaco não tinha um salário fixo; sua remuneração dependia diretamente do volume de material que ele conseguia movimentar em um dia de sol a pino.

A figura do tarefeiro era, talvez, a mais temida no canteiro. Este fiscal do DNOCS tinha o poder discricionário de medir a metragem cavada e, com base em critérios subjetivos, calcular o valor a ser pago em vales de comida (Capítulo 5). Um terreno subitamente classificado como menos difícil, uma medição apressada ou propositalmente imprecisa, significava menos pagamento para o cassaco. Essa margem de manipulação era uma fonte constante de injustiça, garantindo que o custo da obra fosse mantido no patamar mais baixo possível, pago com o suor e o desespero dos trabalhadores.

Para conseguir o mínimo de vales que garantissem a ração de comida para si e sua família, o cassaco era forçado a jornadas de trabalho que iam do nascer ao pôr do sol, muitas vezes sem pausas adequadas. O trabalho era executado com ferramentas rudimentares — picaretas, pás e carriolas de mão — contra a dureza da terra e da rocha. O esforço físico era levado ao limite, sendo a exaustão a norma e o acidente de trabalho, uma ameaça constante.

Mesmo sob o jugo da miséria, o espírito sertanejo encontrava formas de resistência. A ironia e o humor sombrio se manifestavam como mecanismos de defesa:

Solidariedade: A única rede de proteção eficaz era a solidariedade entre os próprios cassacos. Em um sistema onde o pagamento era individual, a ajuda mútua para enterrar um companheiro morto pela doença ou para dividir uma ração de comida com um doente era um ato de heroísmo e sobrevivência.

O Açude Pereira de Miranda, símbolo de redenção e progresso, foi edificado sobre a base de um sistema que explorava e degradava o homem do sertão, transformando a esperança em um ciclo vicioso de trabalho forçado e doença. A história da barragem é, inseparavelmente, a crônica dos cassacos, que derramaram seu suor e, muitas vezes, sua vida, para que a água pudesse, finalmente, vencer a maldição da seca.

Continua no próximo capítulo… ( Aguarde Aqui…)

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