Há cerca de um ano, Francilene Nascimento, 23, tomou para si o viaduto da avenida Mister Hull, no Antônio Bezerra, como lar. Ela veio, junto com o marido e com os seus dois filhos, do município de Pentecoste, localizado na região Norte do Estado, a 89 km de Fortaleza.
Quando chegaram à Capital, não encontraram emprego fixo e tiveram de ir morar na rua. “No início ele até ficou enchendo caçamba de caminhão, mas não ganhava quase nada e ficou logo desempregado”, conta Francilene.
Eles passaram cerca de dois meses à procura de um abrigo, mas as tentativas foram em vão. Foi quando uma “vizinha de calçada” lembrou que alguns companheiros estavam ocupando o viaduto “logo ali de perto”. Aí não deu outra: Francilene se mudou com o marido e com as crianças “de mala e cuia”.
Lá, eles e outras 17 famílias vivem sem saneamento básico, sem energia elétrica e sem água encanada. Vivem completamente à margem dos direitos humanos.
Diante da circunstância de morar nas calçadas, Francilene até gosta de morar debaixo do viaduto. “Aqui pelo menos é coberto e protege da chuva”, diz. Além disso, o amontoado de restos de madeiras que simulam uma casa servem para acomodar a família que cozinha, toma banho e dorme em um só lugar.
Grávida de oito meses, Francilene explica que os “homens da Prefeitura” fazem o cadastro para tirar os “barraqueiros” do local, mas vão embora e não voltam mais. “Mas na época de campanha é promessa direto. Eles prometem casa, prometem tudo e nada”, critica.
Ela tem, entre um de seus maiores sonhos, o desejo de conseguir a casa própria. “Queria um lugar melhor pra criar meus filhos”, emociona-se ao acariciar a barriga e ao lembrar-se do novo menino que nascerá no próximo mês.
Ajuda mútuaAli, no mesmo local, uma senhora forte e com cabelos já grisalhos também enfrenta as dificuldades de morar embaixo do viaduto. Ela fala com desenvoltura, mas não quis se identificar. “Minha filha, a gente não tem nada aqui. A gente vive de uma ajuda e outra que o povo vem deixar”, lamenta.
A sua neta mais nova, que não havia ido à aula por conta da greve nas escolas municipais, reclamava dos puxões que a avó dava na cabeça, ao tentar tirar um piolho aqui e ali que apareciam ao longo dos fiozinhos loiros. “Ai vó! É muito ruim”, dizia.
Os outros netos, que de instante em instante atravessavam a rua que separa a ocupação do outro lado do viaduto, também não escapavam do sermão da avó. “Menino, sai do meio da rua”, gritava.
A senhora insistia nas lamentações e pedia ajuda aos que passavam no local. “Eu sei que aqui é perigoso para criar esses meninos, mas a gente não tem para onde ir. A gente mal tem o que comer, imagine uma casa”.
Fonte: O Povo