“Pra onde eu olho, vejo um verso se bulir.“
Patativa do Assaré
Todo mundo é poeta aos quinze anos, já dizia Leminski. O que faz alguém continuar escrevendo poesias aos sessenta, setenta anos? Essa é uma boa pergunta. Mas, o que faz alguém em uma comunidade rural separada da zona urbana por um enorme açude ou por 54 quilômetros de estrada carroçável em péssimas condições se tornar poeta? Estamos falando da comunidade de Malhada no interior de Pentecoste. Para quem pensa que as atividades da comunidade giram exclusivamente em torno da pesca está muito enganado. A arte, e em particular, a poesia é bem presente na cultura da pequena comunidade.
José Valdemir de Abreu Silva é o nome do jovem poeta da Malhada. Ele atribui sua inserção no universo da produção literária aos incentivos do professor Carlos Antônio, seu professor no ensino médio, que no ano de 2001 pediu para Valdemir e um grupo de alunos produzirem um poema. O texto escrito foi sobre a cidade de Canindé e foi apresentado na sala de aula agradando aos colegas e ao professor. Depois, o professor solicitou outro poema sobre o açude de Pentecoste. Daí em diante, ele não parou. O rapaz, que até então não conhecia o gênero, passou a fazer do ato de escrever poemas uma atividade cotidiana. “Começei a fazer em quadras, depois em sextilhas, septilhas, fui praticando…”, confessou o poeta.
Filho de pais analfabetos, o jovem afirma que sua família não teve acesso à educação: “Meus pais não estudaram e minha avó fez só um mês de aula.” Mesmo sem a possibilidade de um estímulo familiar, dado suas condições sociais, não viu nisso um empecilho. Ele afirma que além de escrever, também gosta de ler poesias e Patativa do Assaré é um dos seus poetas favoritos. “Gosto muito daquele poema dele (Patativa) ‘A triste partida’, ‘Nordestino sim, nordestinado não’ e de muitos outros.” Além de Patativa, gosta da leitura de poetas como Castro Alves, Carlos Drummond, Vinicius de Moraes, dentre outros. Embora leia muitos outros, o escritor afirma que sua maior influencia é Patativa do Assaré.
Valdemir carrega consigo um caderno intitulado: “Caderno exclusivo para poesias”. O material, ainda manuscrito, contém mais de sessenta poemas todos numerados e organizados em índice no formato de livro. O que também chama a atenção é a organização dos poemas no caderno, muitas estrofes são escritas com canetas coloridas dando um toque especial ao trabalho. Ele confessa que tem esperança de publicar seus poemas em um livro e sempre que tem oportunidade exibe orgulhoso alguns de seus versos.
Por Nonato Furtado
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